25/05/2018

1961: O ano do início da Guerra no Ultramar


1961: O ano do início da Guerra no Ultramar Há 50 anos, o país embarcou na guerra colonial. O conflito sangrento, que se prolongou por 13 anos, começou em Angola.



O ano de 1961 foi o pior do salazarismo. Em Janeiro, depois da constipação, a gripe atacou fortemente o presidente de Conselho. A debilidade de saúde de Oliveira Salazar podia ser interpretada como mau presságio. E com razão de ser. O ano decorreu difícil na metrópole - com o lento início do fim do Estado Novo - e nas colónias, com o eclodir da guerra, onde morreram 8803 militares portugueses e 15 507 ficaram portadores de deficiência permanente. A guerra começou a desenhar-se em Angola. Ao massacre da Baixa do Cassange, sucede a 4 de Fevereiro o assalto às prisões e à esquadra da PSP na capital angolana. A 15 de Março, deflagraram sangrentos ataques no Norte.

PRIMEIRO MASSACRE O dia ficou na história como feriado nacional em Angola: 4 de Janeiro de 1961. Milhares de agricultores da antiga Companhia Geral de Algodão de Angola (Cotonang) teriam sido mortos - reclamam os angolanos - pelos militares portugueses, na Baixa do Cassange, distrito de Malange, como resposta a manifestações exigindo melhores condições de trabalho e a abolição do trabalho forçado. O então segundo-sargento miliciano José Moura (hoje com 76 anos), da 3ª Companhia de Caçadores Especiais, a única tropa portuguesa no terreno àquela data, conta: "Não houve mortos nenhuns feitos pela nossa Companhia até ao dia 2 de Fevereiro. Nesse dia, estávamos na Baixa do Cassange, mas não matámos ninguém. Quem lá estava também era a PIDE, a fazer interrogatórios, e se mataram alguém... é possível." Já a 11 de Janeiro de 1961, estala a revolta - instigada por emissários da União dos Povos de Angola (UPA), vindos do ex-Congo Belga. A onda de rebelião varre toda a Baixa do Cassange, causando a morte de um capataz da Cotonang. No dia seguinte, um pelotão da 3ª Companhia de Caçadores Especiais, comandado pelo tenente Silva Santos, é rodeado por um grupo numeroso de revoltosos. O chefe deste grupo só se dispõe a falar ao tenente se as suas forças depusessem as armas. O que veio a acontecer. Silva Santos levou os líderes daquele grupo ao chefe de posto administrativo de Milando. E assim se acalmaram os ânimos. Os dias seguintes foram de tensão, mas não ficaram marcados por confrontos. Em Malange, no dia 1 de Fevereiro à noite, os militares da 3ª Companhia são chamados ao quartel, quando alguns, entre eles José Moura, estavam no cinema a ver o filme ‘Orfeu Negro'. Um comerciante de Cunda Ria-Baza tinha estado reunido com o comandante da Companhia, contando-lhe da aproximação de uma invasão daquela localidade pela UPA. Era já uma da madrugada do dia 2 de Fevereiro quando, debaixo de fortes chuvadas, partiu para Cunda Ria-Baza um ‘pelotão menos' - com cerca de 20 homens - da 3ª Companhia de Caçadores Especiais. Ao amanhecer, os militares ouvem a ira popular: "Vai-te embora, branco." Por volta das 11h00, os Caçadores chegaram à povoação. "Mandei instalar a metralhadora no telhado de um prédio colonial de um comerciante" - recorda José Moura. O pelotão dividiu-se em dois sectores, presumindo a passagem dos revoltosos. Um dos grupos militares, comandado pelo segundo-sargento Moura, abrigou-se atrás do murete da varanda do mesmo edifício. "Veio um numeroso grupo. Eu disparei para o ar, umas duas ou três vezes, a pistola-metralhadora FBP, dando sinal para eles pararem. Mas não obedeceram. Faço então uma rajada para o meio do grupo, o que também não os impediu de avançar. Dei ordem a um soldado atirador especial, e ele disparou sobre o líder do grupo, que era uma espécie de feiticeiro. O tiro foi certeiro." O grupo, que tinha sofrido 11 baixas, dispersou e não foram disparados mais tiros. "O fulano que ia catequizar aquele povo [o feiticeiro] dizia para eles não temerem, que as balas dos brancos eram de água" - recorda. Ali permaneceu aquele pelotão, aguardando pela chegada da 4ª Companhia. No dia 3, chega a Malange o major Rebocho Vaz, vindo de Luanda, com um pelotão para formar o Batalhão Eventual. E já no dia 5 - depois do ataque à esquadra de Luanda, a 4 -, é a vez de chegar a Malange a 4ª Companhia de Caçadores Especiais, que parte de imediato para Cunda Ria-Baza ao encontro daquele pelotão da 3ª Companhia. Pelo caminho, cruzam--se com um grupo rebelde que pretendia assaltar a povoação de Quela. "As nossas tropas circundaram uma sanzala, e dois cabos da 4ª Companhia foram atingidos mortalmente por fogo amigo" - diz José Moura. "São as duas primeiras baixas da guerra", defende. No meio de todos os acontecimentos, o centro de transmissões do Comando Militar de Angola envia uma mensagem ao comando-chefe da Defesa Nacional, relatando os primeiros episódios na Baixa do Cassange: "Malange informou [dia 4, às 23h30] comerciante branco digno de confiança saído Riobaza [dia 4, às 17h00] comunicou força localidade teve actuar fogo abatendo 11 indígenas grupo 150 entre quais uma espécie de feiticeiro agitador já referenciado. (...) Nenhuma baixa nosso lado. Um indígena antes morrer declarou ter sido enganado vistas nossas armas dispararem balas e não água como propalavam(...)." Os acontecimentos na Baixa do Cassange estenderam-se até Março. Nesta altura, a Força Aérea intervém. Logo a 6 de Fevereiro, um Lockheed PV-2 Harpoon bombardeia a região. O número de mortos terá ultrapassado os sete mil. 

O PÂNICO EM LUANDA José Dinis (hoje com 90 anos) saiu de Luanda no dia 4 de Fevereiro às sete da manhã. Regressava ao Uíge, pela estradas dos Dembos, com a mulher e os dois filhos no carro. Àquela hora da manhã não se ouviam tiros. Durante a madrugada, um grupo de patriotas angolanos - gente do MPLA e da UPA - desceu dos musseques com 200 homens de catanas e canhangulos em punho, atacando objectivos da estrutura colonial portuguesa como grito de revolta. Gritavam: "Viva Angola!" Tentaram sem êxito tomar de assalto a Casa de Reclusão Militar, o edifício dos Correios e ainda ocupar a Emissora Oficial de Angola. Em simultâneo, assaltaram a cadeia da PIDE no bairro de São Paulo, além da 7ª Esquadra da PSP - esta acção pretendia libertar presos políticos que, constava, iriam ser transferidos para o Tarrafal, em Cabo Verde. Estes grupos queriam também chamar a atenção dos jornalistas estrangeiros que se encontravam em Luanda na cobertura do assalto ao paquete ‘Santa Maria'. José Vítor Silva, que hoje é advogado em Faro, com 56 anos, nasceu e foi criado em Vila Alice - um bairro de colonos europeus endinheirados, localizado a cerca de 500 metros da 7ª esquadra. Conta que, após o assalto ao ‘Santa Maria', a 22 de Janeiro, em Luanda fervilhava o boato de que um ataque estaria iminente. No dia 3 de Fevereiro, às 17h00, pressentindo o pior, o pai de José pega na mulher e nos dois filhos e leva-os para a casa de um familiar que morava mais perto ainda da PSP. Julgavam eles que seria a melhor maneira de se protegerem. "Recordo-me de ouvir tiros, que deveriam ser das pistolas-metralhadoras FBP dos polícias, como reacção ao assalto à esquadra. Ouvimos também tiros disparados por um português que vivia numa casa contígua à porta lateral, que dava acesso às cadeias da esquadra, por onde entraram os angolanos" - recorda José. Os acontecimentos instalaram o medo nas famílias de europeus, que representavam cerca de um terço dos 300 mil habitantes da capital. Manuel Fonseca (hoje com 57 anos) vivia num bairro cercado por musseques: "Não ouvimos nenhum tiroteio. Mas, no dia seguinte, pairava o medo de que as populações dos musseques nos viessem atacar", conta. Organizaram-se em grupos para se refugiarem no centro de Luanda. "Imagino que tenham ficado cerca de 20 pessoas por apartamento. Os homens ocupavam uma sala e as mulheres e crianças ficavam nas outras. Estavam connosco, ao todo, cerca de 60 a 70 pessoas" - conclui José. As horas que se seguiram aos ataques foram de "caça ao homem". Muitos revoltosos foram presos - em rusgas feitas por duas companhias de caçadores, polícias, elementos da PIDE e cipiaios (polícias da administração portuguesa). A 22 de Março, foi detido - e depois deportado para Portugal - o cónego da Sé Catedral de Luanda, Manuel Mendes das Neves, de quem se dizia ter sido ele a dar ordem de revolta. Os ataques de 4 de Fevereiro resultaram num elevado número de feridos e quatro a cinco dezenas de mortos entre os elementos atacantes. Por parte dos portugueses, morreram sete polícias e um soldado. "Gerou-se o pânico. Enquanto decorriam as cerimónias fúnebres, eu vi um africano ser morto mesmo ao pé de mim. A polícia matou-o" - recorda José Vítor Silva. "Ouviam-se tiros... Havia um sentimento de represália a quem tivesse a cor negra." A partir daí, as pessoas passaram a fazer sentinelas às casas e aos bairros. 

FOTÓGRAFO DE GUERRA Fernando Farinha (hoje com 70 anos) não lia jornais, porque, dada a distância a que se encontrava de Luanda, nem lhe passavam pelas mãos. Tinha 19 anos e estudava na Escola de Regentes Agrícolas de Tchivinguiro, antiga Sá da Bandeira. Quando em Março viajou, de férias, para Luanda, foi surpreendido. O director do jornal ‘O Comércio' - seu grande amigo - perguntou--lhe se queria ir para o aeroporto ouvir e fotografar as pessoas que chegavam do Norte. aterrorizadas. "Nem sequer sabia fotografar" - diz. A 21 de Março, foi criada uma ponte aérea que transportou para Luanda mais de 3500 portugueses residentes no Norte. Como relata um cartaz de acção psicológica alusivo aos acontecimentos de 15 de Março, que se iniciaram na zona dos Dembos e da fronteira com o antigo Congo Belga: "Dia da chacina de milhares de portugueses de todas as cores e etnias não foi esquecido!" Este dia marcou para sempre o início da rebelião dirigida pela UPA, no Norte de Angola - numa altura em que o MPLA se tentava afirmar - mobilizando os negros bacongos, de catanas na mão, para a chacina. Atacaram povoações, postos administrativos e fazendas. Mataram brancos e angolanos que trabalhavam nos cafezais. "Senti pena daquela gente que estava ali: a umas, tinha-lhes morrido o marido; os filhos; outros nem sabiam da família. Era uma grande catástrofe" - conta Fernando Farinha, recordando-se do aeroporto. Tornou-se repórter de guerra. E vai para o Caxito, onde estava estacionado o 1º Esquadrão de Cavalaria - os "Dragões de Silva Porto". "O alferes Marinho Falcão aceitou levar-me com eles numa escolta a uma coluna de automóveis civis. Mais tarde, quando chego ao Úcua, apercebo-me de que estão a preparar uma grande operação militar: a recuperação de Nambuangongo", conta o fotógrafo. Esta vila, a 200 quilómetros de Luanda, estava transformada no quartel-general da UPA. A Operação Viriato, que se iniciou a 10 de Julho, ficaria marcada como uma das mais emblemáticas do Exército, envolvendo centenas de militares, neste início de guerra. "No caminho Úcua-Nambuangongo, andámos sempre debaixo de fogo. Íamos pela estrada e de repente era uma chuva de tiros. Durante os ataques, se eu vi dois ou três guerrilheiros, foi muito. Eles eram rápidos e estavam bem escondidos", prossegue Fernando Farinha. No dia 9 de Agosto, o Batalhão de Caçadores 96 reconquistou Nambuangongo e, às 17h45, três soldados hastearam a bandeira de Portugal na torre da igreja, bastante danificada. Foi o primeiro ponto estratégico a ser recuperado, mas ainda havia muita Guerra Colonial pela frente, que Fernando Farinha acompanhou até 1974. Este era apenas o início do fim. "PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA!" No dia 11 de Abril seguia-se a tentativa de golpe de Estado do ministro da Defesa, o general Botelho Moniz, que pretendia substituir Salazar por Marcelo Caetano e encontrar uma solução para a guerra em Angola, que prometia alastrar a Moçambique e Guiné. Antes da concretização do golpe, Salazar - que tardava a enviar tropas para o teatro de operações - fez uma remodelação governamental e assumiu ele próprio a pasta de Botelho. Dia 14, na televisão, Salazar dirige-se ao País para dizer: "Para Angola, rapidamente e em força!" Passava um mês sobre os massacres no Norte de Angola. Desde 1960 que esta colónia portuguesa tinha apenas 5000 militares do recrutamento local e 1500 enviados por Lisboa. Até ao final do ano, com a nova ordem de Salazar, seriam 33 mil homens. Ao longo dos anos, ficou sempre por responder a pergunta de que se Salazar tivesse reagido antes, teriam ou não sido evitados os massacres de 15 de Março.
 CRONOLOGIA

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