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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Desertores da Guerra Colonial

Mais de oito mil soldados desertaram da Guerra Colonial


O número de militares do Exército Português que desertaram entre 1961 e 1973 ultrapassou os oito mil, segundo uma investigação que vai ser apresentada num colóquio sobre deserção e exílio.

O número de militares do Exército Português que desertaram entre 1961 e 1973 ultrapassou os oito mil, segundo uma investigação dos historiadores Miguel Cardina e Susana Martins que vai ser apresentada num colóquio sobre deserção e exílio.
“Este número, baseado em fontes militares, é um número que peca por defeito e refere-se ao período entre 1961 e 1973. É bastante acima de oito mil e é um número importante porque, até agora, não tínhamos dados sobre o pessoal já incorporado”, disse à Lusa Miguel Cardina, um dos autores da análise histórica sobre o fenómeno da deserção da Guerra Colonial.
Miguel Cardina antecipou à Lusa algumas das conclusões do estudo que será apresentado na próxima quinta-feira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa.
Tínhamos algumas referências a números mas eram parcelares e faziam eco de um certo tipo de deserções. O que nós vamos mostrar é que a deserção é um fenómeno mais complexo do que aquilo que se considerava”, explicou.
Os historiadores do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra, vão apresentar os dados finais do estudo no colóquio “O (as)salto da memória: histórias, narrativas e silenciamentos da deserção e do exílio”, que se realiza na quinta-feira.
De acordo com os investigadores, o número definitivo do novo estudo sobre militares que desertaram da Guerra Colonial “pode pecar por defeito” porque ainda não é possível contabilizar os dados referentes a todos os territórios e o estudo tem como base apenas fontes do Exército.
O Código de Justiça Militar definia como desertor aquele que não comparecia na instalação militar a que pertencia num prazo limite de oito dias.
Segundo Miguel Cardina, para compreender o fenómeno da recusa de ir à guerra, além dos militares que desertaram, é preciso também considerar os refratários – jovens que faziam a inspeção mas que fugiam antes da incorporação – e os faltosos, que nem sequer faziam a inspeção militar.
“Temos dados que indicam que entre 1967 e 1969 cerca de dois por cento dos jovens que são chamados à inspeção foram refratários. Este número é certamente superior ao número dos desertores. Os faltosos são aqueles que nem sequer se apresentam à inspeção. Dados de 1985 do Estado-Maior do Exército indicam que cerca de 200 mil terão abandonado o país. Na década de 1970, cerca de vinte por cento dos jovens que deveriam fazer a inspeção já não se encontravam no país”, indicou o historiador do CES.
Para Miguel Cardina, o “processo de afastamento e fuga” da estrutura militar deve ser estudado com profundidade e, por isso, o estudo começa pelos desertores – porque não existiam números conhecidos até ao momento – mas frisou que é preciso considerar as outras categorias: os refratários e os faltosos.
“Temos de colocar estas três categorias na mesma equação, sabendo que elas são diferentes e têm uma ligação com o fenómeno da guerra, também ela diferente. É natural que, no quadro dos faltosos, a guerra possa estar presente mas não tem o mesmo peso que tem nos refratários e também nos desertores”, explicou.
Segundo o historiador, o “fenómeno dos faltosos” cruza-se com o fenómeno da emigração, sendo que uma boa parte destes jovens não estavam a “fugir da guerra” mas também da falta de perspetivas de futuro, ou seja, “a guerra podia ser” uma das motivações para o ato de emigrar.
A primeira conclusão do estudo indica, sobretudo, que a Guerra Colonial tem ainda aspetos de natureza historiográfica que é preciso aprofundar e torna evidente que a temática do exílio, da deserção e da recusa da guerra precisa de ser estudada.
Para o historiador, a ação do Movimento das Forças Armadas (MFA), em 1974, “é sem dúvida central” mas o processo revolucionário que se desencadeia logo a seguir só pode ser compreendido se percebermos que havia forças políticas e sociais que vinham a construir uma outra forma de olhar o país e a construir uma contestação à ditadura e à guerra colonial.
Sobre os militares que desertaram, Miguel Cardina indicou que “todas as histórias de fuga são individuais” e que, por isso, devem ser tidos em conta os portugueses que vão para a África e que desertam das colónias, refugiando-se em Argel ou na Europa, assim como os africanos incorporados nas forças portuguesas.
Cardina frisou que, nos anos finais do conflito colonial, há um fenómeno de africanização das tropas, “porque havia pouca gente e, por isso, havia necessidade de soldados para a guerra”, verificando-se que muitos africanos incorporados na tropa portuguesa constituem, em muitos casos, um fluxo específico de deserção.
O colóquio foi organizado pela Associação dos Exilados Portugueses (AEP61-74), Centro de Documentação 25 de Abril, Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) e Instituto de História Contemporânea.
Presentes, além de Miguel Cardina e Susana Martins, os historiadores Rui Bebiano, do Centro de Documentação 25 de Abril, Victor Pereira, da Universidade de Pau, em França, e os historiadores Irene Pimentel, Sónia Ferreira, Cristina Santinho, Sónia Vespeira de Almeida e Cristina Santinho.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Museu do Combatente

MUSEU DO COMBATENTE - Forte do Bom Sucesso (Junto à Torre de Belém)
Considerações Gerais - A história de Portugal, desde a sua fundação, em 1143, até aos nossos dias, foi sempre cimentada no terreno através de construções mais ou menos sumptuosas, conforme os feitos e as disponibilidades, monumentos, padrões etc.

Estes marcos históricos mantêm viva a história de Portugal e, consequentemente, o nome daqueles que se bateram por Portugal nos mais diversos campos (culturais, militares, religiosos, etc.). Se percorrermos Portugal de Norte a Sul constatamos o que referimos anteriormente e, por isso, há necessidade de se dar continuidade a esses marcos históricos que lembram aos presentes o que foi Portugal até aos nossos dias e aos vindouros o que foi Portugal no tempo dos seus ascendentes. Dentro dessa continuidade tomou-se imperioso passar "à pedra" a memória daqueles que tombaram em defesa de Portugal no antigo Ultramar e homenagear todos aqueles que serviram Portugal como simples combatentes. Foi assim que nasceu a ideia de construir em Lisboa um "Monumento aos Combatentes do Ultramar" monumento nacional, por envolver todos aqueles que lutaram ao serviço de Portugal, enquanto que ao nível de muitos concelhos já existem monumentos equivalentes mas com características regionais uma vez que apenas abrangem os naturais desses concelhos.



O Monumento
 - Objectivos
Para que se pudesse conceber o Monumento houve que definir objectivos, sendo os mais importantes, os seguintes:
  1. Cumprir um acto de justiça, de homenagem àqueles que, como Combatentes, serviram Portugal no ex-Ultramar português;
  2. Exercer uma acção cultural e pedagógica de exaltação do amor a Portugal;
  3. Traduzir de uma forma simples, mas duradoura e pública, o reconhecimento de Portugal a todos esses combatentes

Local de Construção

Uma vez definidos os objectivos a tomar em conta no projecto do Monumento, houve que escolher o local em que este deveria ser implantado. Assim, e com a concordância do Exmo. Senhor Ministro da Defesa Nacional, do Estado-Maior do Exército, do IPPAR e da Câmara Municipal de Lisboa, foi decidido construir o Monumento junto ao Forte do Bom Sucesso, tomando em consideração o seguinte:
  1. Grande dignidade e tradições ímpares ligadas à nossa epopeia do Ultramar;
  2. Fácil acesso ao público;
  3. Fácil acesso a altas entidades, nacionais e estrangeiras, para a realização de actos solenes de homenagem à memória dos nossos Combatentes;
  4. Espaço adequado para a colocação de forças militares a integrar nas cerimónias de prestação daquelas homenagens;
  5. Possibilidade de integrar o Monumento no Forte do Bom Sucesso, constituindo este um complemento do próprio Monumento onde poderão ser instalados órgãos didácticos e de apoio que permitam evocar a acção dos nossos Combatentes ao longo da nossa história e mostrar outros aspectos tais como, toda a monumentalidade da zona em que se situa o Monumento.

Implementação e execução do Monumento

Para o efeito foi constituída uma Comissão Executiva em 1987/07/09, por mérito próprio, pelas Liga dos Combatentes, Sociedade de Geografia de Lisboa, Sociedade História da Independência de Portugal, Associação de Comandos, Associação dos Combatentes do Ultramar, Associação da Força Aérea Portuguesa, Associação dos Especialistas da Força Aérea Portuguesa, Associação dos Deficientes das Forças Armadas. A presidência da Comissão foi atribuída à Liga dos Combatentes que promoveu todas as diligências, angariação de fundos, projecto, concurso público de adjudicação e execução. A obra foi iniciada em 1993 e inaugurada em 1994/01/15 em acto público presidido por Sua Excelência o Presidente da República. 
Os objectivos a contemplar e a escolha do local, tendo em consideração os parâmetros referidos anteriormente, conduziram à solução em presença, que procura traduzir, através de um simples pórtico de grande dimensão o seguinte:
  1. Grande pureza formal e simbólica;
  2. Grande simplicidade e carácter unitário;
  3. A união entre todos os povos envolvidos na guerra do ex-ultramar português, sem constrangimentos nem ressentimentos.

A homenagem a todos que morreram por Portugal, é feita através das lápides colocadas na própria parede do Forte em que, a par das lápides nominativas, elaboradas, segundo as listas oficiais por anos e por ordem alfabética, existem duas lápides com o escudo nacional em que, na primeira, se faz referência a todos os combatentes envolvendo mesmo aqueles que, eventualmente, não constem nominativamente das lápides já referidas e na segunda, lhes é prestada a homenagem de Portugal. A frieza da geometria do Monumento é quebrada pela "chama da Pátria" que, ao manter-se sempre acesa, simboliza a perenidade de Portugal e a sua continuidade através dos séculos. Todo este conjunto, Monumento propriamente dito, e a sua envolvente, utilizando já as paredes do Forte, constituem um todo, que simboliza a homenagem de Portugal a todos os Combatentes que ao longo da nossa história defenderam os ideais nacionais e a continuidade de Portugal como País independente.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

SPM - Serviço Postal Militar

O Correio durante a Guerra Colonial 
José Aparício 

Com a deslocação para África de grandes efectivos militares a partir de 1961, as Forças Armadas Portuguesas foram confrontadas com a necessidade óbvia de fazer chegar "O Correio" a todos os locais onde estivessem estacionadas unidades militares. 
Naturalmente, a grande maioria das forças do exército encontrava-se dispersa no mato em grandes áreas, onde não havia estações dos correios normais, muitas vezes em locais isolados e inóspitos, alguns de muito difícil acesso. 
Do antecedente o Exército Português tinha a experiência vivida na Flandres durante a 1ª Grande Guerra, quando foi criado, aprovado, e posto em execução o "Regulamento do Serviço Postal do Corpo Expedicionário Português - CEP" que serviu as tropas portuguesas em França em 1917 e 1918. 
No final dos anos 50 início da década de 60, houve necessidade de tornar operacional a Chefia do Serviço Postal da Divisão quando o Exército constituiu e tornou operacional a divisão "Nuno Álvares" integrada no SHAPE. O activar deste serviço nas grandes manobras que então ocorriam durante todo o mês de Setembro em Santa Margarida, e que envolviam cerca de 10,000 militares, aconteceu nas manobras de 1960. Para exercer as funções de chefia desse serviço postal, o Estado Maior do Exército requisitou aos serviços dos Correios um seu funcionário qualificado que graduou em Capitão, e que desempenhou com toda a eficiência a sua missão. Terminadas as manobras este quadro dos CTT regressou à sua anterior situação. 
Quando em 23Jun61 foi decidido criar um serviço de correios militar, o general Câmara Pina, Chefe do Estado Maior do Exército, requisitou de novo aos CTT o mesmo funcionário a quem, depois de graduar de novo em capitão, encarregou expressamente de organizar e pôr em funcionamento um Serviço Postal Militar no Ultramar. 
Nasceu assim o Serviço Postal Militar (SPM) tendo sido o seu primeiro responsável e Chefe do Serviço o capitão miliciano graduado ERNESTO LOURENÇO DIAS TAPADAS, que até ao fim desenvolveu um trabalho notabilíssimo. 
Aproveitando a experiência adquirida pelo Exército português na 1ª Grande Guerra, adaptou o que achou por conveniente, percebeu rapidamente todo a problemática envolvente, e estabeleceu o seu plano de acção eliminando com muita habilidade e diplomacia todas as dificuldades que foram surgindo com os 2 colossos monopolistas, que eram os CTT Continentais e os CTTU do Ultramar, e também com os serviços de Alfandega metropolitanos e ultramarinos. 
A definição dos códigos de endereços foi a tarefa imediata a que a Chefia do SPM se dedicou e que se tornou determinante para o lançamento do serviço. 
Esses códigos eram constituídos por 4 dígitos, dos quais os primeiros 3 definiam a unidade militar, e o ultimo a província ultramarina. Assim, inicialmente o digito 1 correspondia à Índia, o 2 a S Tomé, o 3 a Macau, o 4 a Moçambique, o 5 a Timor, o 6 a Angola, o 7 a Cabo Verde, o 8 à Guiné, e o 9 à Metrópole. 
Devido ao cada vez maior número de unidades em Africa, o critério inicial teve de ser rapidamente alterado, e a atribuição dos IP (indicativos postais) passou a ser feita, pelo EME para as unidades mobilizadas no continente, e pelos respectivos Comandantes Militares nos diferentes territórios para as unidades ali organizadas, mantendo-se sempre o ultimo digito definidor do território de destino. 
Um problema entretanto surgido foi com os navios da Armada que quando saíam das suas localizações iniciais, e navegavam para outros territórios, e de e para a metrópole, recebiam a correspondência com atraso. Para resolver o problema, o 4º digito 1, que inicialmente dizia respeito a Índia, passou a ser atribuído aos navios da Armada, em substituição dos dígitos recebidos inicialmente conforme os locais onde se encontravam 
Após algum tempo, a atribuição de todos os IP foi atribuída a Chefia do SPM. 
Entretanto em Agosto de 1961, depois de difíceis e complicadas reuniões entre o Secretariado Geral da Defesa Nacional , a Administração Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones (CTT) e os Correios Telégrafos e Telefones do Ultramar (CTTU), foi aprovado o celebre "aerograma", considerado um impresso-carta, isento de porte e de sobretaxa aérea, e que era constituído por 1 folha de papel com o peso máximo de 3 gramas, dobrável em 2 ou 4 partes, mas de forma que as suas dimensões depois da dobragem não excedessem os limites máximos de 150x105 mms, e mínimos de 100x70 mms. 
As regras estabelecidas para o endereço a colocar em toda a correspondência a enviar para as unidades expedicionárias obrigavam a que dele apenas constasse o nome, posto, e numero e o indicativo de SPM atribuído. 
A organização geral do SPM consistia numa Chefia em Lisboa, pelo menos uma Estação Postal Principal em cada território, e dentro destes tantas Estações Postais Secundarias quantas as que se revelaram necessárias face ao respectivo movimento postal, e ao numero de PMCs (Posto Militar de Correio), cada um destes apoiando ate 2500 homens. No fim da cadeia, havia em cada unidade um (EDPU) Encarregado da Delegação Postal da Unidade normalmente o(s) cabo(s) escriturário(s) da(s) unidade(s), que recebiam formação especifica para essas funções. 
Em 21Jul61 entrou em funcionamento em Luanda a Estação Postal Militar Principal nº 6, menos de um mês depois da criação do SPM! Quando se iniciaram as hostilidades na Guine e em Moçambique já ali se encontrava completamente operacional o SPM. 
O SPM foi um serviço totalmente constituído por milicianos, nele tendo servido 202 oficiais e 504 sargentos. O seu quadro foi constituído inicialmente apenas por funcionários dos CTT e CTTU, graduados em oficiais e sargentos conforme a sua posição hierárquica nos seus serviços. A partir de 1966 o recrutamento passou a fazer-se entre oficiais e sargentos milicianos da metrópole a quem era dado um curso específico no Centro de Instrução do SPM no Forte do Bom Sucesso em Lisboa. 
O serviço prestado pelo SPM foi notável. Muito para além dos números impressionantes de milhões de aerogramas, cartas, encomendas, vales do correio e valores declarados, por eles tratados e enviados; durante os anos de guerra a expedição média diária foi de 10 toneladas de correio(!!!) para um total transportado de 21 mil toneladas. 
É que nunca falhou, mesmo nos locais mais perigosos difíceis e isolados, e os prazos médios entre a expedição e a recepção eram mínimos. 
Só quem ali viveu esses tempos pode testemunhar o alvoroço e a alegria da chegada do correio, o conforto e ajuda que todos sentíamos pelas noticias da família e dos amigos. 
O SPM foi extinto em 10 de Julho de 1981, cessando toda a sua actividade em 31 de Dezembro de 1981. 
Com a discrição com que iniciaram os seus trabalhos, assim os terminaram, como se nada de especial tivessem feito, naturalmente sem reconhecimento público assinalável. 
O SPM que escolheu como divisa do seu guião "A vida por uma mensagem" bem a honrou ate ao fim. 
Ao Capitão Miliciano ERNESTO TAPADAS, e a todos os que integraram o SPM durante toda a sua existência, é devida uma enorme gratidão por milhões de portugueses; por todos os que, de 1961 a 1975, serviram na Índia, em Africa, em Macau e em Timor, e também por todas as suas famílias que em Portugal mitigavam as saudades e as suas angustias com as noticias dos seus filhos tão longe. 

Os que estiveram na guerra nunca os esquecem! 

Nota: 
A informação relevante acima descrita foi retirada do livro "Historia do Serviço Postal Militar" de Eduardo Barreiros e Luís Barreiros, ISBN 972-9119-65-1

domingo, 13 de maio de 2018

Memórias das Guerras Coloniais



Miguel Cardina, investigador do Centro de Estudos Sociais de Coimbra, venceu uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação para estudar a evolução das memórias das guerras coloniais e de libertação. (05-09-2016)

Uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação no valor de 1,4 milhões de euros foi atribuída ao investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) de Coimbra Miguel Cardina para estudar a evolução das memórias das guerras coloniais e de libertação.
A bolsa do Conselho Europeu de Investigação foi atribuída a Miguel Cardina para concretizar o projeto de investigação “Memórias cruzadas, políticas do silêncio: as guerras coloniais e de libertação em tempos pós-coloniais”, que terá uma duração de cinco anos, anunciou esta segunda-feira o CES da Universidade de Coimbra, em nota de imprensa.
O projeto vai ser realizado em Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, propondo-se fazer uma “história das memórias das guerras coloniais e das guerras de libertação”, disse à agência Lusa o investigador Miguel Cardina.
A guerra e a luta pela independência deixaram “marcos e legados de diferentes naturezas” e que “têm uma história que se prolonga até aos dias de hoje”, sublinhou.
“Vamos analisar as marcas desse passado e a sua evolução ao longo das décadas, fazendo uma história das inscrições memoriais”, bem como “das políticas do silêncio”, analisando aquilo que poderá ter sido “seletivamente” lembrado e o que foi esquecido “em cada um dos países”.
Para isso, será feita uma análise a material tão diverso como manuais escolares, discursos políticos feitos ao longo dos últimos 40 anos, monumentos ou notícias.
Serão também feitas “entrevistas a antigos combatentes das diferentes forças que estavam no terreno” e será analisado “material disponível na internet”, visto que com o surgimento das redes sociais e blogues “democratizou-se a possibilidade de as pessoas contarem a sua história e articularem memórias”, afirmou Miguel Cardina.
O objetivo será fazer “um retrato detalhado de como a memória foi evoluindo ao longo destas quatro décadas” e analisar a relação de cada sociedade com o seu passado, em torno de “fenómenos tão marcantes que acabaram por construir nações e remodelar relações de nações com o território”, realçou o investigador.
Neste concurso para a bolsa “Starting Grant” do Conselho Europeu de Investigação, que procura apoiar jovens cientistas europeus, contabilizaram-se “3.000 candidaturas”, informou o CES.
Miguel Cardina era à data vice-presidente do conselho científico do CES, tendo recebido o prémio CES para Jovens Cientistas e o Prémio Victor de Sá de História Contemporânea pela sua tese de doutoramento Margem de Certa Maneira. O maoísmo em Portugal: 1964-1974.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

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Os filhos "proibidos" da guerra colonial





Os filhos "proibidos" da guerra colonial

A guerra colonial foi um dos períodos mais negros da História de Portugal que ceifou a vida a milhares de jovens obrigados a embarcar para África para defender o império, orgulho do regime fascista. Muitos deles deixaram por lá lá filhos, alguns dos quais procuram ainda hoje reconhecimento e cidadania. 
Por Marana Borges.
1 de Março, 2016 

“Os militares eram o símbolo do poder colonial: homens, brancos, fortes; elas, mulheres, africanas, negras".

Eles são filhos da guerra. Têm pais portugueses, mães africanas. Os pais eram jovens soldados ao serviço de um país que, em plena metade do século XX, ainda se esforçava por conservar as colónias em África; as mães, mulheres pobres que em geral lavavam a roupa das tropas portuguesas durante a guerra na Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Por vezes, colonizador e colonizada apaixonavam-se; outras vezes, elas ofereciam serviços sexuais em troca de dinheiro ou comida. Os filhos nascidos dessa situação são muitos. Centenas. Talvez milhares. Nunca ninguém os contou. Sem registo do pai biológico, vivem estigmatizados nos seus países, onde são conhecidos como “restos de tuga”.

A barreira do medo

Quarenta anos após as guerras coloniais travadas por Portugal nos territórios africanos, alguns destes filhos começam a reivindicar suas origens. Tarefa difícil. Com o aumento da violência e a eclosão da guerra civil nos territórios que conquistaram a independência, as mães queimaram a pouca documentação que pudesse servir para identificar os pais dos seus filhos. Cartas, fotos, até certidões. Temiam as perseguições e frequentes assassinatos contra qualquer suspeito de ter colaborado com a ex-metrópole. Dos filhos, geralmente registados em nome de outro pai, também guardaram segredo. Mas se os apelidos podiam esconder a origem portuguesa, a cor da pele denunciava-a. Vistos como “brancos” no país natal, muitos pagaram caro por isso.

O Império português, glorificado até à exaustão pelo fascismo. No mapa de 1934

Um deles é Fernando Hedgar da Silva. Camionista,vive na Guiné-Bissau. Dedicou grande parte de sua vida à procura do paradeiro do pai. Não teve sucesso. Aos 48 anos, ainda se sente discriminado, “meia pessoa”. “Todo o filho tem o direito de conhecer quem o gerou”, disse por telefone ao Opera Mundi. Em 2014, foi à Embaixada de Portugal na Guiné, que lhe comunicou ser o pai quem devia reconhecer o filho, e não o Estado. O cônsul, contudo, prometeu analisar o caso e depois entrar em contato com ele Fernando ainda espera uma resposta. Agora está à frente de uma associação com 50 desses filhos, e reclama o direito à cidadania portuguesa.

Sem registo do pai biológico, vivem estigmatizados nos seus países, onde são conhecidos como “restos de tuga”.

Uma questão particular ou de Estado ?

Esta batalha depende da forma como se interpreta a questão, ou seja, estamos perante um assunto particular ou de Estado. Aosamerasians, como ficaram conhecidos os filhos de mulheres vietnamitas com militares norte-americanos nascidos durante a Guerra do Vietname (1955-1975), a quem os Estados Unidos concederam, nos anos 80, após um intenso debate público, o estatuto de imigrante. Não houve exigência em provar a paternidade – bastavam os traços físicos. Cerca de 26 mil filhos emigraram para os Estados Unidos, apesar de apenas 3% deles terem logrado reencontrar seus progenitores.

Mas em Portugal – que enviou para o continente africano cerca de um milhão de militares durante os 13 anos de guerra colonial (1961-1974) – o assunto ainda é tabu. Contatado pelo Opera Mundi, o ministério de Negócios Estrangeiros, responsável pelas relações externas do país, absteve-se de comentar o caso, alegando que este “nunca foi confrontado com essa questão ou com situações concretas”.

A primeira (e única) pessoa a dar projeção nacional ao tema foi Catarina Gomes, repórter do jornalPúblico, com uma série de reportagens(link is external), uma das quais obteve este ano o Prémio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha. Descobriu o assunto por acaso, durante um trabalho de campo para escrever um livro sobre a guerra colonial. Depois, criou um canal online para receber informações sobre pais e filhos(link is external). Assim encontrou António Bento, que aceitou o convite para regressar a Angola e conhecer o filho que deixara ainda na barriga de sua parceira de então, por quem se apaixonara aos 23 anos.

Do machismo às desigualdades sociais e económicas

António é um caso raro de um pai à procura do filho. Procurou-o toda a vida. A maioria dos ex-combatentes colocou uma pedra sobre o assunto. Casado, com duas filhas e residente numa pequena cidade de 11 mil habitantes na região do Alentejo, a 85 km de Lisboa, António fez da sua paternidade um assunto público. Participar na reportagem do jornal foi a única forma de superar os custos de uma viagem impossível para alguém que, aos 63 anos, está desempregado. Do encontro com o primogénito, hoje sargento de 40 anos com quatro filhos, lembra com voz emocionada. “Sou sentimental, choro ao ver o final de uma novela, imagine como fiquei ao conhecer o meu filho depois de tanto tempo?”


O momento da partida dos militares para a guerra.

A principal razão para a maioria dos pais esconderem o passado, segundo António, é o medo de fragilizar o ambiente familiar atual: “Muitos nunca disseram às suas esposas que tiveram um filho antes”. Ele disse, e não foi fácil. Agora junta as poucas economias e aguarda a reforma para poder ver o filho mais uma vez. Mas fá-lo discretamente: “Esse assunto continua a ser tabu, a ser só meu.”

O drama da paternidade revela outros tabus como o machismo, o racismo, a desigualdade social e económica. “Os militares eram o símbolo do poder colonial: homens, brancos, fortes; elas, mulheres, africanas, negras. Muitas não voltaram a casar ou foram escondidas do meio social”, conta a jornalista Catarina Gomes. Se os “filhos do vento”, como também são chamados, tivessem tido mães brancas, ricas, europeias, continuaria a ser tão difícil encontrar os seus pais portugueses? Ninguém se atreve a responder.

quinta-feira, 10 de maio de 2018


Os factos aqui relatados são verídicos e provenientes do testemunho real de um ex-combatente da Guerra do Ultramar: o meu avô, Fernando da Conceição, que gentilmente se disponibilizou para os relatar, assim como para partilhar algumas das suas recordações desse período em que esteve na Guerra.

Com esta partilha dá-se a conhecer algumas das experiências que, assim como o meu avô, tantos outros homens viveram e que os marcaram para o resto das suas vidas.
Pretendo, deste modo, prestar uma sentida homenagem a todos estes grandes heróis, que são muitas vezes esquecidos, sobretudo pelo passar do tempo que vai deixando essa época cada vez mais longínqua.
Contudo, todos estes homens não deixaram de ser grandes lutadores. Não foi por regressarem do combate que deixaram de lutar, porque ainda hoje todos lutam contra as memórias sangrentas dessa altura! Todos eles são, ainda hoje, os mesmos heróis de antigamente!

Capítulo I – O embarque


Postal ilustrado com o "Paquete Vera Cruz"

Foi no dia 11 de janeiro de 1969. Partiu o meu batalhão juntamente com mais três, com destino a Luanda (Angola). Tudo juventude, cerca de 21 anos. Todos forçados a ir e, quem sabia, não mais voltar. Mas tínhamos de ir e não havia volta a dar. Restava-nos a ínfima esperança de voltar a ver aqueles que ali à nossa frente se encontravam.
Muitos familiares de todos os que partiam, menos os meus... Senti-me sozinho e um pouco desamparado. Aconchegavam-se em abraços apertados, beijos desesperados, choros angustiantes, uma amargura cortante que se impunha em todos os corações. Talvez até fosse melhor estar sozinho... Sim, talvez fosse melhor. Não teria de me despedir novamente de familiares e amigos, porque como diz o velho ditado “longe da vista, longe do coração”. Estivera com eles quinze dias antes, conforme a autorização que tivera para tal. E esses dias tiveram de servir para aproveitar o máximo que pude junto desses meus mais queridos. Confesso que me soube a pouco, mas foi bom. Deu-me algumas forças para regressar à Amadora, para depois seguir viagem. A viagem!... Essa tal que me viria marcar muito mais do que eu esperava, deixando cicatrizes profundas não só no corpo, como também no coração. Ai esse!... Tão mutilado que ele ficou. Nunca mais fui o mesmo e, às vezes, ainda me pergunto quem seria eu sem A viagem!...
Uma vez passados esses quinze dias junto da família e amigos, regressei, então, ao Quartel da Amadora. Todos nós que partiríamos para a guerra estávamos mentalizados do que iria acontecer... Não o suficiente, é certo. Contudo, sabíamos do que poderia suceder e só isso bastava para cortar a nossa respiração. O clima era de tensão e desespero. Só que não adiantava... Iríamos para o combate, independentemente de tudo.
Saí do Quartel para o cais da Rocha, onde já estava o Vera Cruz à nossa espera. Quando lá cheguei, olhei-o e admirei-me com a sua enormidade. Tive medo. Era aquilo que me iria arrancar do meu país, dos meus mais queridos, da minha vida... Para me levar ao meu maior pesadelo! Para me roubar de quem eu era!... Nunca mais fui o mesmo.
Antes de embarcarmos, mandaram-nos formar para ouvirmos um general a falar. Assim o fizemos. Nesse momento, fez-se silêncio. Comoveu-se-me o coração, mas exteriormente não perdi a postura. Olhei pelo canto do olho e vi o comandante do meu batalhão a dirigir-se a nós e a posicionar-se à nossa frente. Foi então que ele começou a falar e proferiu uma frase que me marcou e nunca mais me saiu da cabeça: “Vamos para a guerra.”; eu ouvia-o com atenção. “Nós vamos todos. Mas não voltamos todos.”; arrepiei-me. Todos sabiam bem isso... Mas não esperávamos ouvi-lo em voz alta. Senti um nó a formar-se na garganta e engoli em seco. Seria eu que não voltaria? Seria o meu colega do lado? Seria o meu amigo mesmo à minha frente?... Poderia ser qualquer um de nós.
Desesperei. Mas não havia volta a dar... Íamos mesmo todos. E nem todos regressariam.
No fim desse discurso, fomos entrando no Vera Cruz. Muitos apressavam-se para ir acenar às suas famílias e amigos, num último adeus, lá do cimo do barco. Eu, antes de entrar, hesitei. Benzi-me e, fechando os olhos, ali fiz a minha promessa com todas as minhas forças. Promessa essa que cumpriria assim regressasse. Sim, eu teria de regressar. Tinha deixado muito para trás... Tinha o meu grande amor à minha espera e eu voltaria para ela. Não podia desiludir aquela mulher, porque ela já tinha um pedaço de mim e eu já tinha um pedaço dela. Pensaria no aconchego dos seus abraços, no calor dos seus beijos e na doçura do seu olhar, porque isso me dava alguma esperança. E eu precisava disso, para além de muita fé e coragem!
Entrei e estava pronto a ir (que remédio!). Todos estavam empoleirados na lateral do barco virada para a multidão que estava em terra, de tal modo que o peso daqueles tantos homens fez com que o barco se inclinasse um bocado. Tal era o barulho que se ouvia no exterior, como era o barulho que ecoava por mim adentro, como gritos que ficavam presos no meu corpo, reprimidos por mim.
O Vera Cruz ecoou três apitos ensurdecedores e começou a mover-se. A viagem estava prestes a começar. Os lenços brancos agitavam-se, acenando, nas mãos dos militares e nas mãos das pessoas em terra. Lágrimas. Gritos. Dor. E um vazio gélido e agoniado. Pouco a pouco, afastávamo-nos. Dali a momentos, deixaríamos de ver terra e estaríamos sós, entre céu e mar, rumo a um futuro aterrorizante e desolador. Havia nos nossos corações um frágil fio de esperança, alicerçado na fé de que, talvez dali a dois anos, pudessemos estar de volta à nossa Pátria. Mas também havia muito medo do que ainda teríamos de enfrentar...

Através do testemunho de Fernando da Conceição