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segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Natal na Guerra de África

Natal no Quiximba


Natal em Zau Évua
Natal na Guerra

A prece da fotografia contemplada
no altar da separação
a carta triste
de quem está longe

a missa do galo na igreja
a comunhão da cerveja
a consoada de ração de combate
o sabor a medo
o silêncio do repicar dos sinos
a saudade
a paz na Terra
aos homens de boa vontade

in Poemas da Guerra de Jose Niza

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Desertores - na Guerra Colonial


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O número de militares do Exército Português que desertaram entre 1961 e 1973 ultrapassou os oito mil, segundo uma investigação que vai ser apresentada num colóquio sobre deserção e exílio.
O número de militares do Exército Português que desertaram entre 1961 e 1973 ultrapassou os oito mil, segundo uma investigação dos historiadores Miguel Cardina e Susana Martins que vai ser apresentada num colóquio sobre deserção e exílio.
“Este número, baseado em fontes militares, é um número que peca por defeito e refere-se ao período entre 1961 e 1973. É bastante acima de oito mil e é um número importante porque, até agora, não tínhamos dados sobre o pessoal já incorporado”, disse à Lusa Miguel Cardina, um dos autores da análise histórica sobre o fenómeno da deserção da Guerra Colonial.
Miguel Cardina antecipou à Lusa algumas das conclusões do estudo apresentado na na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa.
Tínhamos algumas referências a números mas eram parcelares e faziam eco de um certo tipo de deserções. O que nós vamos mostrar é que a deserção é um fenómeno mais complexo do que aquilo que se considerava”, explicou.
Os historiadores do Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra, apresentaram os dados finais do estudo no colóquio “O (as)salto da memória: histórias, narrativas e silenciamentos da deserção e do exílio”, que se realiza na quinta-feira.
De acordo com os investigadores, o número definitivo do novo estudo sobre militares que desertaram da Guerra Colonial “pode pecar por defeito” porque ainda não é possível contabilizar os dados referentes a todos os territórios e o estudo tem como base apenas fontes do Exército.
O Código de Justiça Militar definia como desertor aquele que não comparecia na instalação militar a que pertencia num prazo limite de oito dias.
Segundo Miguel Cardina, para compreender o fenómeno da recusa de ir à guerra, além dos militares que desertaram, é preciso também considerar os refratários – jovens que faziam a inspecção mas que fugiam antes da incorporação – e os faltosos, que nem sequer faziam a inspeção militar.
“Temos dados que indicam que entre 1967 e 1969 cerca de dois por cento dos jovens que são chamados à inspecção foram refratários. Este número é certamente superior ao número dos desertores. Os faltosos são aqueles que nem sequer se apresentam à inspeção. Dados de 1985 do Estado-Maior do Exército indicam que cerca de 200 mil terão abandonado o país. Na década de 1970, cerca de vinte por cento dos jovens que deveriam fazer a inspeção já não se encontravam no país”, indicou o historiador do CES.
Para Miguel Cardina, o “processo de afastamento e fuga” da estrutura militar deve ser estudado com profundidade e, por isso, o estudo começa pelos desertores – porque não existiam números conhecidos até ao momento – mas frisou que é preciso considerar as outras categorias: os refratários e os faltosos.
“Temos de colocar estas três categorias na mesma equação, sabendo que elas são diferentes e têm uma ligação com o fenómeno da guerra, também ela diferente. É natural que, no quadro dos faltosos, a guerra possa estar presente mas não tem o mesmo peso que tem nos refratários e também nos desertores”, explicou.
Segundo o historiador, o “fenómeno dos faltosos” cruza-se com o fenómeno da emigração, sendo que uma boa parte destes jovens não estavam a “fugir da guerra” mas também da falta de perspetivas de futuro, ou seja, “a guerra podia ser” uma das motivações para o ato de emigrar.
A primeira conclusão do estudo indica, sobretudo, que a Guerra Colonial tem ainda aspetos de natureza historiográfica que é preciso aprofundar e torna evidente que a temática do exílio, da deserção e da recusa da guerra precisa de ser estudada.
Para o historiador, a ação do Movimento das Forças Armadas (MFA), em 1974, “é sem dúvida central” mas o processo revolucionário que se desencadeia logo a seguir só pode ser compreendido se percebermos que havia forças políticas e sociais que vinham a construir uma outra forma de olhar o país e a construir uma contestação à ditadura e à guerra colonial.
Sobre os militares que desertaram, Miguel Cardina indicou que “todas as histórias de fuga são individuais” e que, por isso, devem ser tidos em conta os portugueses que vão para a África e que desertam das colónias, refugiando-se em Argel ou na Europa, assim como os africanos incorporados nas forças portuguesas.
Cardina frisou que, nos anos finais do conflito colonial, há um fenómeno de africanização das tropas, “porque havia pouca gente e, por isso, havia necessidade de soldados para a guerra”, verificando-se que muitos africanos incorporados na tropa portuguesa constituem, em muitos casos, um fluxo específico de deserção.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Dia de Finados e Fiéis Defuntos



Nestes dias de Finados e de Fieis Defuntos muita gente aproveita para ir ao Cemitérios homenagear recordando parentes e amigos que já partiram. Outros, apenas relembram deles com carinho e saudade ou fazem uma oração.
Nós queremos recordar aqui, todos os nossos camaradas que no cumprimentos da sua missão ou quando já depois do regresso faleceram

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Guerra de África - Contributos

"Às tantas, até eu comecei a fazer a guerra contrafeito. Só que temos dignidade militar"


Fez ao longo de uma vida militar o pleno na defesa do império colonial português: da Índia a África. Depois, participou activamente a norte no 25 de Abril de 1974, onde era o único que não era capitão. Crítico dos tempos revolucionários do PREC, considera que se andou depressa de mais na descolonização e acabou-se por "abandonar a população, permitindo que os estrangeiros que foram para lá fizessem o que nós deveríamos". Contesta a política de Salazar, designadamente nos discursos em que afirmava que "do alto destas muralhas defenderemos o império". Porque falar em muralhas no século XX é fora de propósito: "A Inglaterra fez a mesma tentativa, viu que não era possível e conversou. Por isso, os ingleses mantêm-se em todo o sítio onde estiveram e beneficiam-se dessa situação."


Porque é que três chefes militares como Kaúlza de Arriaga, Spínola e Costa Gomes não conseguiram pressionar Salazar e Caetano a encontrar uma solução política?
Enquanto foi vivo, Salazar era inamovível. Depois, Marcelo Caetano era um homem permeável às nossas reivindicações, de que a guerra era uma estupidez, mas tinha por trás o presidente da República, Américo Tomás. Quando Spínola tentou convencer Salazar, a resposta foi: "Não percebo como com tantos homens não ganhamos a meia dúzia de terroristas!" Nunca percebeu o que era a Guerra do Ultramar.
Um dos motivos para os militares fazerem o 25 de Abril era acabar com uma guerra de 13 anos.

Perderam a confiança?
Porque sabíamos que a guerra levava a um desastre. A Guiné acabou com armas teleguiadas que nós nunca tivemos, com artilharia superior à nossa... Salazar deixava-nos nesta situação com toneladas de ouro guardadas nos cofres. A única coisa que fez foi dar-nos uma espingarda nova.
Foi chefe da Casa Militar do presidente Mário Soares. Como conviveu com o político e o homem que fez uma descolonização sempre tão criticada?
Fez mal a descolonização, mas não foi por sua culpa. Teve de acudir a situações incríveis de portugueses fardados com uniforme do Exército que se entregaram aos inimigos. É preciso saber isso e fazer-lhe justiça.

Não tinha outra hipótese para avançar na descolonização?
Naquela altura não. Tentou-se mandar tropa para lá, impor uma certa ordem, mas venceu aquele slogan "Nem mais um para África". Foi algo incrível o que se passou cá e lá, com o Rosa Coutinho a fazer um serviço à União Soviética impensável. Deveria ter sido condecorado por eles!
Também existia um divórcio entre os civis e os militares no Ultramar?
Não. Pensavam apenas que os militares deviam matar para continuar aquela situação.

Qual a razão desse divórcio tão grande?
Foi mais em Angola, porque aí havia muito mais brancos do que nas outras províncias. Como estavam a ganhar bom dinheiro nas propriedades - quase do tamanho de alguns distritos de Portugal -, não as queriam perder.
Nunca olharam para os militares como sendo uma parte da solução?
A princípio sim, porque fomos salvar alguns da boca do lobo. Depois, quando os militares começaram a dizer "eu cumpro a minha obrigação de militar enquanto o Estado quiser, mas estou convicto de que cometemos um erro", a situação mudou.

Alguma vez acreditou que a guerra podia ser ganha ou que estava ganha?
Em Angola, praticamente acabou-se o terrorismo. Já na Guiné não, aí o mundo soviético fez uma força enorme. Em Moçambique, foi uma guerra que se perdeu porque o Kaúlza era um bom militar mas de guerra clássica. Já o Spínola, que sabia bem o que era guerrilha, nunca deixou de afirmar "toda a guerra tem que acabar em conversações. Vamos demorando para ver se Lisboa cede e se eles também cedem, mas temos que conversar. Temos que ir para a mesa de conversações."

Os militares debatiam entre si sobre uma solução política para o conflito?
Havia os que tinham medo, porque se dizia que a PIDE tinha metido elementos fardados na tropa. E os que falavam abertamente.

Mas não havia muita consciência política?
Ela criou-se de repente e mais na oficialidade. Até porque muitos dos soldados eram analfabetos.

A consciência política surge mais para o fim da guerra?
Às tantas, até eu comecei a fazer a guerra contrafeito! Só que nós temos dignidade militar e se o comandante me manda fazer uma coisa, eu - que jurei bandeira - sou obrigado a executar. Fazíamo-la contrafeitos, mas o melhor que podíamos.


Se tivesse de fazer um perfil desses três chefes militares, qual seria o de cada um?
Costa Gomes foi um homem lúcido. Viu que estávamos numa desgraça mas calava-se. O seu trabalho era de gabinete e nunca foi um comandante como Spínola, que andava sempre no mato. Que era o único chefe que fazia isto! Havia tiros, nós agachavamo-nos e ele ficava de pé!

Os oficiais estavam preparados para aquele tipo de guerra?
Para aquele tipo de guerra - subversiva - a maioria não estava. A formação era a guerra táctica de 1939-45, e muito da parte alemã. Porque os melhores tácticos da Segunda Guerra Mundial eram os alemães, que perderam porque os seus meios eram muito menores do que os dos outros todos juntos, sobretudo com a América e a Rússia contra.

Por que razão houve tanta violência inútil cometida pelos soldados portugueses junto das populações. Qual é a sua opinião sobre isso?
O que houve foi que o Antoninho da Calçada [Salazar] deixou de poder mandar os tipos mais fracos embora. Antes de começar a guerra, todos os anos as admissões à Academia Militar eram de várias centenas e podia-se escolher os melhores. Começou a guerra e, no segundo ano de admissões, foi zero! Por isso, aqueles que não tiveram como eu quatro anos de formação militar fizeram coisas incríveis a prisioneiros. Eles tiveram meio ano de formação, portanto não tinham ética, e fizeram-se judiarias!

A que nível?
Quando se é militar, luta-se sem ódio. O pior é quando ele entra na guerra, o que aconteceu em muitos casos. Quando se apanhava massacrava-se. De parte a parte!


Mas a seguir ao 15 de Março de 1961 a resposta branca foi muito violenta?
Foi uma resposta por parte de civis e de alguns militares que lá estavam. Havia, infelizmente, muito pouca tropa em Angola.

Como se portou o militar português?
Houve bons, maus e péssimos, mas a grande maioria foi boa. O que também houve foram coisas que me revoltam, como quando os soldados morriam e eram enterrados cá de noite para não se ver. No estrangeiro, fazem festas de homenagem aos que morrem pela Pátria - porque quem combate fá-lo pela Pátria e não por Angola. Só um homem que não tinha formação de ética militar, como Salazar, era capaz de fazer uma coisa dessas.